->Portuguese

This post is the result of fieldwork carried out in December 2017 in the city of Pemba, in the neighborhoods of Alto-Gingone, Cariacó and Natite. It describes how the socioeconomic characteristics of households, together with the climatic conditions of the city, can contribute to the proliferation of Aedes aegipty mosquitoes.

In recent years the province of Cabo Delgado has been receiving investments in several areas such as tourism and mining. These new investments have contributed to economic growth and improved living standards for some of the province’s population. Meanwhile, at the same pace as the economy of the province grows, the social problems in its capital the city of Pemba are growing too. In search of better living conditions, many families have migrated from the various districts of the province into Pemba, however, due to housing unavailability and lack of quality water and sanitation infrastructure, these families end up living in inadequate conditions. Most of them have to start building informal settlements. New migrants also face economic problems due to the high cost of living, as Pemba is considered the most expensive city in Mozambique.

The conventional building materials such as concrete, stone and adobe, are among the most expensive products marketed in the city. Many households can not afford o build a house with these materials. Alternatively households use available local materials to build their homes, materials such as clay, stones, bamboo and the inner part of car and truck tires.  The inner part of the tire is removed and cut into thin strips (see Fig. 1) which are used in the construction to join the bamboo and lift the walls  that are then coated with clay or cement. After having removed this part, the tires are discarded and they are used by the children as toys with which they play in the streets and in the backyards of the houses. When children get tired of playing the tires are left in the blocks’ backyards (see Fig. 2).

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Strips made from the inner part of tires that are used in the construction of houses in Pemba

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Tires in the backyards of Alto-Gingone

In some homes the tires are also used as locks for doors that give access to the yard as a way to prevent thieves from entering the yard and house. When they go to sleep, the families lean the tires on the doors, standing or lying down, so that whoever is outside the house can not open the door or, in case the person can, the tire makes enough noise to wake them up.

In rainy weeks, which are common in the city throughout the year, the tires dropped in the backyard can become breeding pools for Aedes aegipty . The female mosquitoes can lay their eggs inside the tires, which are filled with water after each rain. During my ethnography I  observed many tires in the streets and backyards of the neighborhoods, with not only water but also mosquito larvae inside (see Fig. 3).

Tire filled with rain water in Alto-Gingone

Besides water storage containers located in and around households, tires are also contributing to the appearance and proliferation of the mosquito in this part of the country.

By Amanda Matabele

Uso de pneus como material de construção e surgimento de focos do Aedes Aegipty na cidade de Pemba

O presente texto é resultante de um trabalho de campo realizado em Dezembro de 2017, na cidade de Pemba, nos bairros de Alto-Gingone, Cariacó e Natite e descreve como a condição socioeconómica dos agregados, aliada às condições climáticas da cidade, pode contribuir para que estes estejam expostos à doenças transmitidas pelo Aedes Aegipty.

Nos últimos anos a província de Cabo Delgado tem vindo a receber investimentos em várias áreas como o turismo e a indústria extractiva, o que contribuiu para o crescimento económico e a melhoria de nível de vida da população daquela província. Entretanto ao mesmo ritmo que cresce a economia da província e, principalmente, da cidade capital, Pemba, agudizam-se os problemas sociais nesta cidade. A procura de melhores condições de vida, muitas famílias migram dos vários distritos da província para o centro da cidade entretanto, devido aos problemas de habitação e a falta de saneamento básico, estas famílias acabam por viver em condições pouco adequadas. Estes problemas agudizam-se devido ao alto custo de vida que a cidade tem, a cidade é considerada a cidade mais cara do país devido ao preço dos produtos que são relativamente maiores.

O material de construção convencional como cimento, pedra e areia, está entre os produtos mais caros comercializados na cidade. Muitos agregados não conseguem dinheiro suficiente para custear a construção de uma casa com esse material. Como alternativa os agregados utilizam o material local para construírem as suas casas, materiais como o barro, pedra, bambú e a parte interna de pneus de carros e camiões que são predominantes naquela cidade. A parte interna do pneu é retirada e cortada em tiras finas (ver Fig. 1) que são usadas na construção para unir o bambú e levantar as paredes e os muros que depois são revestidos por barro ou cimento. Depois de ser retirada esta parte, os pneus são descartados e passam a ser usados pelas crianças como brinquedos com os quais brincam pelas ruas e nos quintais das casas. Quando as crianças se cansam de brincar os pneus largados nos quintais das casas (ver Fig. 2).

Nalgumas casas os pneus são também usados como trancas para as portas que dão acesso ao quintal como forma de evita a entrada de ladrões no interior do quintal e da casa. Quando vão dormir, os agregados encostam os pneus as portas, de pé ou deitados, para que quem esteja do lado de fora da casa, não consiga abrir a porta ou para que, no caso de a pessoa conseguir, a porta faça um barulho suficiente para acordá-los.

Com a chuva e as altas temperaturas que se fazem sentir na cidade, os pneus largados no quintal podem virar criadouros do Aedes Aegipty. A fêmea do mosquito pode depositar os seus ovos no interior do pneu, que depois das chuvas fica cheio de água, pode reproduzir-se e posteriormente infectar os residentes da casa ou do bairro pela dengue através de picadas. Durante a recolha de dados foi possível ver vários pneus nas ruas e quintais dos bairros com água e larvas no seu interior (ver Fig. 3).

No caso da idade de Pemba é necessário que se tenha uma atenção redobrada para a questão do uso de pneus pois estes também podem ser fundamentais para o surgimento e o aumento de focos do Aedes Aegipty, o que pode aumentar e agravar os casos de Dengue naquele ponto do País.

Por Amanda Matabele

->Portuguese

On the 6th of November 2017 I embarked in a journey to the city of Maputo, Mozambique. I travelled to this emblematic city located in a beautiful bay of the Indian Ocean with the intention of understanding water-storage practices in the city, and researching whether these relate to the re-surgence of Aedes mosquitoes in Mozambique. Since the moment I decided this was going to be my MSc research topic, I read everything I could on the city colonisation, urbanisation, and water-services context. Furthermore, I was also trying to correlate these contexts with certain ideas I had on aquatic habitats for mosquitoes. As much as my head could compile the published information and draw images from the many historical documents of the city, nothing prepared me to the experience of the city, being there, walking, getting lost, talking to people, living the city from a first-hand experience.

Methodologically, I knew that my thesis would have to consider the social connotations of water storage, alongside the aquatic habitat assessment of water-containers. I am a biologist, so from my ideas of what a habitat is, how it establishes, and the characteristics it may portray I was ready to evaluate these characteristics in the city. However, as I walked the city and started talking to people, communities, researchers, and health-specialists from Maputo, I found that exploring Aedes aegypti’s habitats in a city like Maputo was going to challenge my preconceived ideas of what a habitat is, and how nature occurs in rich social contexts.

Due to water shortages and service challenges faced by small water providers and by the National Water and Sanitation Company FIPAG, intermittence is the common rule, hence water-storage is a collective practice in Maputo. Residents of the city have water readily available in multiple ways, whether it is through direct connections to the water utility, independent water providers, via water-tanks, resale, or communal kiosks. However, as I zoomed in to some particular contexts and neighbourhoods of the city, I found that water availability is experienced and materialised differently. For example, large water tanks found in formal spaces, like Polana cimento, allows residents in these areas to store water in bulk and accumulate it in perpetuity. Conversely, smaller water buckets in informal places like Chamanculo, make water less available throughout the day for the residents of this neighbourhood. This provides an interesting outlook on how formality and informality in the urbanisation process of a city like Maputo, translates to different daily routines of water-storage.

Experiences and materialisation of water service intermittence concur with emergence of aquatic habitats for mosquitoes like Aedes aegypti. While water intermittence determines water-storage practices, water quality parameters like temperature, pH, electrical conductivity, organic material, and light intensity come into place to complicate the water-container. Stored water rapidly transforms into an aquatic habitat not only for mosquitoes, but to a myriad of microorganisms that are harmful for human health.

By Angela Bayona

Significados sociais e ecológicos de recipientes de água

No dia 6 de Novembro de 2017, embarquei numa viagem para a cidade de Maputo, Moçambique. Eu viajei para esta cidade emblemática localizada em uma bela baía do Oceano Índico com a intenção de entender as práticas de armazenamento de água na cidade, e pesquisando se estas se relacionam com a ressurgência de mosquitos Aedes em Moçambique. Desde o momento em que decidi que este seria meu tópico de pesquisa de mestrado, fiz a revisão de artigos sobre a colonização da cidade, a urbanização e o contexto dos serviços de água. Além disso, eu também estava tentando correlacionar esses contextos com certas idéias que tinha sobre habitats aquáticos para mosquitos. Por mais que minha cabeça pudesse compilar as informações publicadas e desenhar imagens dos muitos documentos históricos da cidade, nada me preparou para a experiência da cidade, estando lá, andando, me perdendo, conversando com as pessoas, vivendo a cidade de uma experiência pessoal.

Metodologicamente, eu sabia que minha tese teria que considerar as conotações sociais do armazenamento de água, juntamente com a avaliação do habitat aquático de recipientes de água. Sou bióloga de formação e, por isso, pelas minhas ideias sobre o que é um habitat, como ele se estabelece e as características que pode apresentar, senti-me pronta para avaliar essas características na cidade. No entanto, enquanto caminhava pela cidade e comecei a falar com pessoas, comunidades, investigadores e especialistas de saúde de Maputo, descobri que explorar os habitats do Aedes aegypti numa cidade como Maputo iria desafiar as minhas ideias preconcebidas sobre o que é um habitat, e como a natureza ocorre em contextos sociais ricos.

Devido à escassez de água e aos desafios de serviço enfrentados pelos pequenos fornecedores de água e pelo Fundo de Investimento e Património do Abastecimento de Água FIPAG, a intermitência é a regra comum, pelo que o armazenamento de água é uma prática colectiva em Maputo. Os moradores da cidade têm água prontamente disponível de várias maneiras, seja por meio de conexões diretas com a concessionária de água, fornecedores independentes de água, via tanques de água, revenda ou quiosques comunitários. No entanto, à medida que ampliava alguns contextos e bairros particulares da cidade, descobri que a disponibilidade de água é experimentada e se materializa de maneira diferente. Por exemplo, grandes tanques de água encontrados em espaços formais, como no bairro da Polana cimento, permitem que os moradores dessas áreas armazenem água a granel e a acumulem por muito tempo. Por outro lado, pequenos baldes de água em lugares informais como o bairro de Chamanculo, tornam a água menos disponível durante o dia para os moradores deste bairro. Isto fornece uma perspectiva interessante de como a formalidade e a informalidade no processo de urbanização de uma cidade como Maputo, se traduzem em diferentes rotinas diárias de armazenamento de água.

Experiências e materialização da intermitência do serviço de água coincidem com o surgimento de habitats aquáticos para mosquitos como o Aedes aegypti. Enquanto a intermitência da água determina as práticas de armazenamento de água, os parâmetros de qualidade da água, como temperatura, pH, condutividade elétrica, material orgânico e intensidade de luz, são utilizados para complicar o recipiente de água. A água armazenada se transforma rapidamente em um habitat aquático não apenas para os mosquitos, mas para uma miríade de microrganismos prejudiciais à saúde humana.

Por Angela Bayona

->Portuguese

Gathering with male community members. Alto-Gingone, November 2017

During the discussions held by the research team of the project, it was suspected that women would be vulnerable to Aedes aegypti mosquitoes. This because these mosquitoes frequently bite inside households and during morning hours and (we thought) many women stay home during the day. However, after traveling to Pemba and conducting house to house ethnographic work in the low-income neighborhood of Cariacó, one of the neighborhoods that was most affected by the dengue epidemic, I was struck by the number of young men who were at home during the day. Young men stayed home during the mornings and afternoons hanging around the house, in the living room watching television or in the small porches sitting on top of the beds (beds made of sisal and wood). These young spent their days chatting and playing on their high-end mobile phones.

On the basis of a conversations with some of these young men, it was possible to know that a large part of the youngsters finished the average level of general education and could not find a formal job. Some of the youngsters engage in temporary jobs that provide immediate cash payments, accompanying tourists in the city and showing them the main sights, especially the beaches. In addition to these young men I also observed the presence of some children who gave up school. In conversations some of them justified their decision arguing that “studying is very difficult”. I also noticed the presence of elderly women sitting in the living rooms or on the porches. Based on these observations, it was possible to reflect on the difference between the ideas we made before going to the field and what was really going on the ground. While most women were outside working, young men were hanging out around the house.

 By Margarida Paulo

Quem é vulnerável de contrair dengue no bairro de Cariacó, cidade de Pemba?

Durante as discussões da equipe de pesquisa do projecto: “Dengue, Água e Agregados Familiares” suspeitou-se que as mulheres estariam vulneráveis ao mosquito causador da dengue, porque grande parte de mulheres ficam em casa durante o dia. A partir de observações realizadas nos agregados familiares, no bairro de Cariacó, em Pemba, durante o period entre 07-13 de Dezembro de 2017, chamou-me a atenção a quantidade de jovens de sexo masculino que se encontravam em casa durante o dia, na sala de estar a assistir televisão ou nos pequenos alpendres sentados por cima de quitantas (camas construídas de fios de sisal e madeira). Estes jovem mexiam em seus telemóveis que curiosamente são de alta qualidade.

Com base numa rapida conversa com alguns desses jovens foi possivel saber que grande parte dos jovens terminou o nível médio do ensino geral e não conseguiu arranjar emprego formal. Alguns dos jovens fazem biscatos (trabalhos temporários que dão dinheiro imediato) quando aparecem turistas na cidade que os acompanham para mostrar os locais turísticos da cidade de Pemba, especialmente as praias. Para além desses jovens também observei a presença de algumas crianças que desistiram de estudar, que na conversa com algumas delas justificaram que estudar é difícil. Tambem observei a presença de mulheres idosas sentadas na sala de estar ou entao na varanda. Com base nessas observações foi possível reflectir sobre a diferença que existe entre as ideias que elaboramos antes de ir ao campo e o que realmente ocorre no terreno.

Por Margarida Paulo

->Portuguese

Water storage containers and households in Pemba, Cabo Delgado

This report is the result of ethnographic research carried out among the households of three low- income neighbourhoods of Pemba, the capital city of the province of Cabo Delgado: Natite, Cariacó and Alto Gingone. We focused on the everyday activities of capturing and storing water within the neighbourhoods’ households. During our field work in the above mentioned neighbourhoods we noticed that in some households the water service, supplied by the Fund for Investment and Water Supply Heritage (FIPAG) presented some shortcomings. Due to water supply intermittence, the water was stored in underground reservoirs made out of cement. These reservoirs can be made in quadrangular or circular shapes (See Figures 1 and 2). Circular shaped tanks are smaller and are usually built outside or inside the home, depending on the will of the inhabitants.

According to some informants the use of cement tanks is customary in the region. Their direct ancestors constructed them as a way to ensure the durability of the container, unlike the clay pots they used to store water in the more remote past. Formerly, families used tanks made out of clay to conserve water. These tanks were built with local materials, that is, with clay that came from the soil of the region. With the modernization and urbanization of the region, households started using cement instead of clay, as cement started being seen as a material with greater durability in relation to clay.

Different informants sustained that local residents can be hired to build the tanks. These residents charge around 100 to 150 meticais on average, depending on the size of the tanks. Wealthier households with enough income to build quadrangular-shaped tanks eventually become private water suppliers. Since they are able to store more water than their neighbours they end up selling them this water whenever there are shortages. According to the community, the construction of cement tanks is a strategy to cope with the frequent and unexpected water cuts of the FIPAG, which are frequent in the neighbourhoods of Natite, Alto Gingone and Cariacó.

These cement tanks are mostly covered with zinc sheets or with lids made out of wood. Owners of cement storage tanks sometimes clean them with a local product called “certainty” (made of chlorine). Some other times, in periods without many water cuts, they resort to washing them with clean water.

By: Danicia Munguambe  

Os tanques de água usados em alguns agregados familiares na cidade de Pemba, Cabo Delgado

O presente relatório resulta de uma pesquisa etnográfica realizada entre os membros de agregados familiares dos bairros (de baixa renda) de Natite, Cariacó e Alto Gingone com enfoque nos processos de captação e armazenamento de água nos agregados familiares. Durante o período de trabalho de campo nos bairros acima citados percebi que em alguns agregados familiares o processo de fornecimento de água pela Fundo de Investimento e Patrimônio de Abastecimento de Água (FIPAG) apresentava algumas restrições. Após a captação a água era armazenada em reservatórios subterrâneos feitos de bloco e cimento, quer em formato quandrangular ou circular (Ver figuras 1 e 2). Os tanques de formato circular são construídos fora ou dentro de casa, dependendo da vontade do proprietário do agregado familiar.

De acordo com alguns informantes o uso de tanques de cimento é algo costumeiro da região e histórico porque os seus antepassados construíram como forma de assegurar a durabilidade do recipiente, diferente das panelas feitas com argila que usavam antigamente. Foi-me informado que antigamente algumas famílias usavam tanques feitos de argila para conservação da água. Esses tanques eram construídos de material local, isto é, argila que provinha do solo da região. Com a modernização apareceu o cimento que foi visto como material com maior durabilidade em relação à argila.

Os informantes contaram que existem pessoas locais indicadas para construir os tanques, que em média cobram 100 a 150 meticais dependendo do tamanho do mesmo. A maior parte de casas que tem os tanques de cimentos de formato quandrangular, as famílias tornam-se fornecedores privados de água o que facilita o processo de busca e uma forma de os proprietários dos tanques fazerem negócio. A construção de tanques de cimento é também justificada como uma forma de possuir água armazenada nas casas independente de acontecer alguma restrição de água do FIPAG, visto que os casos de restrição de água são frequentes nos bairros de Natite, Alto Gingone e Cariacó.

Os tanques na sua maioria são cobertos de chapas de zinco ou tampas feitas de madeira. Segundo informação fornecida por alguns participantes, para a limpeza dos tanques os proprietários usam cloro “certeza”, em outros casos recorrem a lavagem dos tanques quando o fornecimento de água não regista restrições, evitando desse modo a possibilidade de não ter água armazenada.

Por: Danicia Munguambe